Florêncio Maria
Florêncio Maria Jacinto nasceu a 19 de novembro de 1939, no Monte Portela das Barreiras, freguesia de Sabóia. Natural do concelho de Odemira, é filho de Duarte Jacinto e de Adelina Maria, e, atualmente, reside em Vale Mezinho, Freguesia de Luzianes-Gare.
Membro de uma família com 9 filhos (4 rapazes e 5 raparigas), começou cedo a trabalhar no campo, onde fez quase tudo. Aos 10 anos de idade começou a ser pastor (ovelhas, cabras e porcos) tendo trabalhado em vários montes, como assalariado. Nunca casou.
Quando era jovem gostava muito de ir para junto dos cantadores de despique e de baldão, onde ficava horas a fio a ouvi-los. Gostava tanto do cante ao despique e ao baldão que treinava, durante o dia, enquanto cuidava dos animais.
Florêncio Maria refere que eram muitas as horas que ficavam a cantar, chegavam a ser noites inteiras, e o cante era sempre acompanhado com bebida, o que ainda fomentava mais o despique e o cante ao baldão.
Quando tinha 13 anos um vizinho ofereceu-lhe um livro com 48 versos sobre namorados, que memorizou e que ainda hoje sabe. Nas Feiras gostava muito de comprar folhetos com décimas que memorizava.
Florêncio Maria Jacinto frequentou a escola da Corte Brique, num curso de alfabetização para adultos com mais de 30 alunos (homens) e fez o exame da 3ª classe em Santa Clara. Reconhece que o facto de ter frequentado a escola o ajudou muito no período em que esteve emigrado em França, embora hoje já não escreva.
Quando a atividade da pastorícia entrou em declínio, ainda trabalhou no corte da madeira, mas havia pouco trabalho e teve que procurar outra forma de sustento.
Refere que foi “emigrante de assalto” em França, na zona de Paris, durante um período de 7 meses e, como não correu bem, acabou por regressar a Portugal e, como não conseguiu trabalho no Concelho de Odemira, acabou por se deslocar para o Algarve, onde trabalhou nas limpezas num hotel, trabalho de que nunca gostou. Reformou-se aos 63 anos por invalidez e regressou a Luzianes-Gare, onde reside.
Florência Maria Jacinto é uma pessoa bem-disposta, afável, humilde e com um grande sentido de humor. Está constantemente a referir que já pouco ou nada sabe, que as décimas de que mais gosta são as dos outros, as dos seus amigos. As suas décimas tratam temas do seu dia a dia e do seu quotidiano.
Começou a cantar muito cedo, e cedo demonstrou ser um poeta com grande espírito de observação e uma grande memória. A sua poesia, toda ela feita em décimas, com um mote, é depois desenvolvida em 4 décimas. Como ele não tem por hábito escrever as suas décimas, tem uma forma muito particular de as dizer.
Tem participado no “Sonoridades e Sabores”, programa que, todos os anos, faz um roteiro pela tradição musical e gastronómica do interior do concelho de Odemira.
Florência Maria Jacinto é do tempo em que os cantadores/homens do baldão passavam as noites nas tabernas, influência muito visível nas suas décimas, e é referenciado como sendo um dos grandes cantores de despique e baldão na forma mais popular possível, no estilo antigo, e também muito respeitado por isso!
Constitui, assim, um imperativo de Justiça que a Comunidade reconheça e valorize, publicamente, o papel e a ação que este ilustre odemirense demonstrou ao longo da sua vida, constituindo um exemplo de grande Mérito e Altruísmo, pela excecional relevância da sua paixão e dedicação à sua arte e à sua partilha com os outros, pelo que o Município de Odemira atribui a Medalha Municipal de Mérito a Florêncio Maria Jacinto.
Odemira, 8 de setembro de 2023.

