Liberdade Sobral
Liberdade da Silva Sobral nasceu a 3 de março de 1934, na Ribeira do Seissal de Cima. Natural do concelho de Odemira, residiu na Figueirinha entre os 4 anos e os 31 anos, depois mudou-se para a Herdade da Represa Velha e, nos últimos anos, viveu no Monte da Estrada. Faleceu aos 86 anos de idade, a 23/07/2020.
A D. Liberdade, como era conhecida, tinha um coração enorme, era uma senhora risonha e bem-disposta, mas um pouco envergonhada, que encantava pela sua forma de ser e de estar.
A D. Liberdade era neta de um professor primário, mas nunca foi à escola. Como a maioria das crianças da época, em especial as meninas, nunca teve a possibilidade de frequentar a escola, de aprender “as artes de ler e escrever”, como ela própria referia. Facto que lamentou toda a vida e que está bem patente na poesia por ela produzida.
Começou cedo a trabalhar no campo. Com seis anos de idade, começou a apanhar molhos de ervas aromáticas para vender. À medida que ia crescendo foi-se ocupando de várias atividades que diziam respeito à vida rural, como cavar e malhar milho, apanhar azeitona, fazer carvão, ceifar, mondar arroz e guardar gado.
Casou, tornou-se mãe de sete filhos e a sua vida era dividida entre a lida da casa e o trabalho no campo. No início dos anos 80, uma das suas filhas passou por um momento de aflição e, fruto da sua fé, contava que, desesperada e sem saber o que mais poderia fazer, foi ao nicho de Castelo de Padrões, onde está a Senhora das Neves (cruzamento de acesso à Ribeira do Seissal, entre Colos e Campo Redondo) e prometeu que, faria uma santa para colocar no nicho de Castelo de Padrões. As suas preces foram ouvidas e, sem formação artística nem meios adequados, viu-se obrigada a cumprir o que prometera.
D. Liberdade não acreditava, no início, que fosse capaz de tal proeza, mas pôs mãos à obra, utilizando os recursos a que tinha acesso, e começou a esculpir com arame, areia e cimento. Esculpiu duas santas de tamanho real: uma para a ermida da Nossa Senhora das Neves e outra para o cruzamento da estrada de Colos – o lugar da promessa que se encontra ainda hoje nesse local.
Este momento de fé despertou em si uma vontade criativa para a escultura que a própria desconhecia que possuía. Tomou-lhe o gosto e continuou a criar “bonecos”, sem que ninguém lhe tenha ensinado as técnicas base da arte de moldar. As peças iam desde a arte de inspiração religiosa, representação de animais, figuras humanas, a criaturas fantasiosas, surreais, seres inexistentes concebidos no seu imaginário fértil, figuras com vários membros, duas cabeças a partilhar o mesmo corpo, animais às riscas e às pintas, bichos sem nome porque não existem, com preferência pelas cores fortes, dominando o amarelo, o vermelho e o azul. Tudo aquilo que conseguimos imaginar – e o que não conseguimos, também.
O Monte onde vivia, na Herdade da Represa Velha, era a prova viva deste seu imaginário, com flores e bonecos desenhados e pintados nas suas paredes.
Nos primeiros anos, as pessoas vizinhas criticavam bastante a D. Liberdade, facto que a deixava magoada, pelo que como ela referia “A maioria dos meus trabalhos foi feita por mim de madrugada, enquanto os outros dormiam, quando se levantassem, eu já tinha pintado”. Insegura por natureza, a D. Liberdade dizia, a rir, “Não sei de onde vêm as ideias. Eu pego num pedaço de barro e penso que faço uma coisa, mas faço outra. O barro é que me diz o que vou fazer. Depois de ter o barro na mão, aquilo dá-me o ar do que hei-de fazer e então faço. Às vezes quando acabo de fazer os bonecos, parece que não sou eu que os faço”.
De notar que tudo isto aconteceu num monte isolado, numa terra sem tradição cerâmica. Apenas depois de já produzir bastantes bonecos, entronchos, como lhes chamava, a D. Liberdade, aprendeu a utilizar o barro e a cozê-lo.
Há uma escultura que representa o xadrezista odemirense, Damiano, boticário de profissão, representado, de casaca e calções e a cruz de Cristo ao peito, em massa de cimento, colocado num jardim, em Odemira que, por isso, tomou o nome de Jardim Damiano. Num outro jardim de Odemira, o jardim da Fonte Férrea encontra-se também uma homenagem aos jardineiros feita por ela. Era assim a sua sensibilidade: alguém que prestava homenagem aos que cuidam da beleza dos lugares.
Artista plástica de cunho popular, de tardia vocação, era conhecida sobretudo no concelho, mas a sua obra obteve ampla divulgação, nomeadamente através da FACECO (Feira das Atividades Económicas e Culturais do Concelho de Odemira), onde várias vezes expôs as suas esculturas. Muitas delas, adquiridas por apreciadores de fora.
Como se a cerâmica e as atividades do campo não bastassem para provar que era uma mulher dos sete ofícios, dedicava-se também à poesia, criando versos enquanto guardava o gado.
Esses seus poemas estão imortalizados num pequeno livro intitulado Retalhos da Minha Vida, editado pela Câmara Municipal de Odemira, em julho de 2001, e refletem acerca da vida no campo alentejano, da natureza, do desgosto que tinha em ser analfabeta (só sabia assinar o seu nome), havendo ainda espaço para comentários sociais através de poemas como O Pobre Trabalhador Antigo, Sou Uma Pobre Liberdade e Não Fui Votar (sobre um transporte que não chegou a aparecer para a ir buscar à aldeia, quando lhe prometeram que teria possibilidade de ir votar aquando de um período eleitoral).
Alguns artigos na imprensa referem que “Liberdade Sobral faleceu em 2020, provavelmente sem saber que se afirmou como uma das mais peculiares artistas naïf do Alentejo e – arrisque-se a dizer – de Portugal.”
Como refere António Martins Quaresma “Liberdade Sobral foi uma mulher excecional, como artista e como pessoa. Ela venceu obstáculos, rompeu com preconceitos e, enquanto realizava as múltiplas tarefas diárias da casa, foi dando forma material aos sonhos. Disse-nos adeus, mas deixou amável lembrança aos que a conheciam e uma obra de ceramista e escultora a todos quantos se interessam pela arte.”
Constitui, assim, um imperativo de Justiça que a Comunidade reconheça e valorize, publicamente, o papel e a ação que esta ilustre odemirense demonstrou ao longo da sua vida, constituindo um exemplo de grande Mérito e Altruísmo, pela excecional relevância da sua paixão e dedicação à sua arte e à sua partilha com os outros, pelo que o Município de Odemira atribui a Medalha Municipal de Mérito a Liberdade da Silva Sobral.
Medalha atribuída a título póstumo; recebeu a medalha a neta Felisbela Loução.
Odemira, 8 de setembro de 2023.

